domingo, 21 de janeiro de 2018

ex-purgatório


enquanto escrevia um idílio, ela chegou, e gritou. e foi embora.
enquanto escrevo uma tragédia, ela me espia, e ri da minha cara.

não posso fazer nada sobre isso; a pena, a caneta e o teclado são meus: a realidade também é minha.

enquanto escrevo e paro de escrever, elas correm e param. e correm de novo. e param.
enquanto rasgo palavras sem que ninguém veja, na verdade sempre há alguém vendo.
então resolvo rasgar realidades. e sonhos. e esperanças. e a própria garganta.

enquanto giro sem colocar nada para fora, o mundo lá fora não para de girar.

enquanto minto para mim mesma dizendo que isso é um déjà-vu, as memórias mentem para mim.
enquanto espero que o mundo melhore, o mundo não espera mais nada de mim.

enquanto escrevo, de repente percebo que, na verdade, nada foi escrito.
enquanto olho para o céu à espera de respostas, o céu permanece nebuloso, oferecendo a sua resposta.
enquanto contemplo o nada, nada acontece.

nada acontece.

quarta-feira, 2 de março de 2016

calei-doscópio

a vida respinga em vidros e desce pelo ralo
e descubro que minhas mãos estão enrugadas.

as olheiras roxas têm milhões de cores
as artérias se exibem garbosas e choram
a cicatriz insiste em ficar

a girândola não para
sinto enjoo da paisagem tremida
o sofá equivale ao ócio
ósseo quebradiço da alma

qual a faceta mais próxima da liberdade?
eu tenho medo de gente
medo da gente que é muito mais que a gente
da gente que mente
da gente que foge da gente

me da dó ter medo de gente
o medo da gente é dor que se estende
e tende a ficar pungente
na gente

por que a gente tem medo
se o medo é só artimanha
para acabar com a gente?

a dor que se estende não sai mais da gente
e a gente persiste em ter medo de gente

quarta-feira, 9 de julho de 2014

todos me dizem pra ser isso ou aquilo ou assim ou assada e cozida e frita ao molho
todos esses terríveis tagarelas sociais

estarei me limitando. só quero ser eu e mais ninguém.
ponto.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

sem título - número enésimo

um tapete de nuvens em minhas mãos. um artigo incompleto. uma saudade que não passa. ideias que nunca irão para o papel e papeis que nunca virarão ideias.

processos, processos, processos... uma mente esquecida que processa, mas não processa, e ao mesmo tempo esquece não querendo esquecer e não lembra querendo lembrar

suja de argila
vermelha e atordoada, sinto tristeza

fico. mais quebrada que vidro em muro. fico.


quarta-feira, 21 de maio de 2014

velhos há- bitos

não tenho tempo pra ser poesia.
a poesia tem todo o tempo do mundo
mas o mundo não tem tempo pra mim.


levanta, levanta. não tem tempo. veste qualquer coisa. não, você não tem tempo e não pode usar maquiagem. vai chover. não, sem guarda-chuva. está no mundo é pra se molhar. trânsito. sono. sono. sono. acorda. você quer comprar tempo? crédito ou débito? não, essa bandeira não aceitamos. não, não vendemos amor aqui, talvez ainda esteja à venda no quiosque da praia, mas a um preço absurdo porque é Copa. talvez lá também tenha acabado. a Copa leva tudo. é, vai ter Copa. não, também não vendemos Dorflex, aqui não é farmácia. Rivotril também não. merda, chuva e uma unha quebrada. anda. espera, que horas são? anda.

um grito e estou em casa, olhando pro nada, há um ano atrás.

uma passagem para a Poesia, por favor. só de ida. não faça perguntas.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

-

derreto na boca da vida, como algodão-doce.

enquanto derreto, penso e repenso
em como as palavras se esvaem por meus dedos
desaparecem
e me torno infeliz.

está cada vez mais difícil
tornar-se
broto
tornar-se
embrião
tornar-se
vivo

tornar-se?

o doce derretido
(vivo)
continua doce?