domingo, 21 de janeiro de 2018

ex-purgatório


enquanto escrevia um idílio, ela chegou, e gritou. e foi embora.
enquanto escrevo uma tragédia, ela me espia, e ri da minha cara.

não posso fazer nada sobre isso; a pena, a caneta e o teclado são meus: a realidade também é minha.

enquanto escrevo e paro de escrever, elas correm e param. e correm de novo. e param.
enquanto rasgo palavras sem que ninguém veja, na verdade sempre há alguém vendo.
então resolvo rasgar realidades. e sonhos. e esperanças. e a própria garganta.

enquanto giro sem colocar nada para fora, o mundo lá fora não para de girar.

enquanto minto para mim mesma dizendo que isso é um déjà-vu, as memórias mentem para mim.
enquanto espero que o mundo melhore, o mundo não espera mais nada de mim.

enquanto escrevo, de repente percebo que, na verdade, nada foi escrito.
enquanto olho para o céu à espera de respostas, o céu permanece nebuloso, oferecendo a sua resposta.
enquanto contemplo o nada, nada acontece.

nada acontece.

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