sábado, 20 de julho de 2013

exatas duas horas

eu estou dentro de uma redoma de vidro.
todos nós estamos.

eu sempre achei que a redoma de vidro era basicamente o símbolo da vida.

uma grande redoma, para incluir corações com grande alegria, ou retirar mágoas e decepções com pesar, mas com firmeza e certeza.
uma redoma transparente, quando se quer abrir o livro dos pensamentos e questionamentos, ou de vidros negros, quando se quer distanciar de todo esse mundo e de toda essa atenção.

uma redoma onde eu pudesse ir para outras redomas, me divertindo e sendo parte da redoma de outra pessoa querida, ou ainda me colar ao vidro exterior das redomas dos entes queridos que já deixaram as suas redomas, deixando lá a sua aura e as suas lembranças mais fortes, como flashes de imagem e luz que nunca se apagam.

uma redoma para, quando for preciso, me encolher e ficar lá, a ver as palavras, os rostos, as vozes e as imagens pairarem enevoadas sobre a minha cabeça e sobre o espaço, sabendo que não poderei me retirar, para depois de tudo isso eu estar lá, colada ao vidro, observando e observando a vida e as outras redomas lá fora...

uma redoma para, talvez, dividir com mais uma pessoa no futuro. fundi-las. morar juntos (ou juntas? quem escolhe com quem vai dividir sua redoma?), colar os narizes ao vidro ao mesmo tempo, isso é engraçado!



um dia, eu deixarei a minha redoma. ficará vazia. restarão só as lembranças, as músicas, os rostos e as imagens.
e eu penso... quem irá visitar minha redoma depois que eu deixá-la? o que deixarei como exposição em minha redoma? alguém lembrará da menina que colava curiosamente seu rosto contra o vidro límpido daquela singela redoma?


eu ainda voltarei?


ainda são duas horas.
mantenho minha vida atrás de um vidro...

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